GASTROPLASTIA
03/07/1999
Recurso extremo
Passar despercebida na rua era até recentemente o maior sonho da estudante de Psicologia Fernanda Lourenço dos Santos, 22 anos. Ela chamava a atenção pelo volume: 147,5 quilos para uma altura de 1,67 metro. Naturalmente as habituais chacotas e brincadeiras de mau gosto deram-lhe uma adolescência sofrida. Mas hoje, com a queda de peso para 61,5 quilos - obtida em um ano e meio -, Fernanda atrai olhares de admiração. Essa mudança deveu-se à gastroplastia, cirurgia para reduzir o tamanho do estômago. Durante muito tempo ela só era feita no Hospital das Clínicas de São Paulo. Agora, outras instituições começam a se capacitar, como o HC da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que está realizando uma cirurgia por semana a partir deste mês.
O segredo da gastroplastia é simples: com a diminuição de volume, o estômago enche-se rapidamente, transmitindo ao cérebro a mensagem de saciedade e fazendo a pessoa comer muito menos do que anteriormente. Suas variadas técnicas foram aperfeiçoadas nos últimos anos. Uma das mais utilizadas hoje em dia é a da gastroplastia vertical com bandagem - colocação de uma cinta fixa para regular a saída de alimento da minúscula bolsa a que fica reduzido o estômago. "É a mais segura e permite a perda de 40% do peso em um ano", afirma Arthur Garrido Jr., professor associado de Cirurgia do Aparelho Digestivo da Faculdade Medicina da USP.
Os resultados são bons, mas a cirurgia exige sacrifícios dos pacientes devido à difícil convalescença. No primeiro mês, a alimentação restringe-se rigorosamente a líquidos. A partir daí começam a ser introduzidos os sólidos em pouquíssima quantidade, algo equivalente a uma xícara de café em cada refeição - dosagem a que o paciente terá de se acostumar pelo resto de sua vida. Para quem se espantar com ela, supondo uma ameaça de desnutrição, a medicina responde que em casos de hiperobesidade a absorção dos alimentos é completa, ao contrário do que ocorre em pessoas normais. Mas esse assunto ainda está no terreno das hipóteses, advertem os médicos. A verdade é que os hiperobesos operados sobrevivem muito bem.
A gastroplastia é indicada apenas nos casos de obesidade mórbida, em que a saúde é afetada e todos os recursos para emagrecimento foram esgotados, quer dietas, quer remédios. A obesidade mórbida é determinada pelo Índice de Massa Corpórea (IMC) acima de 40. Estudos feitos nos Estados Unidos revelam que pacientes nessa faixa, entre 25 e 34 anos, sofrem risco de óbito 12 vezes maior do que pessoas da mesma idade e peso adequado. J.T.V., candidato à cirurgia, pertence àquele grupo de risco. Ele é funcionário da Unicamp, pesa 234 quilos, mede 1,84 metro e vem tendo dificuldade para respirar por causa da gordura. Enquanto aguarda a vez, faz regime para perder 10% do peso a fim de facilitar a cirurgia com o necessário apoio psicológico para não reincidir. "É que as pessoas muito obesas comem em excesso também como forma de compensação", diz a psicóloga Marlene Monteiro da Silva, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
De fato a gula, assim como o sedentarismo, está entre os maus hábitos que levam à obesidade. "Mas a doença também está relacionada a fatores hereditários", diz o cirurgião José Carlos Pareja, introdutor da técnica no Hospital de Clínicas da Unicamp. O cérebro de pessoas obesas funciona de maneira diferente da do cérebro dos magros, não se deixando comandar pela leptina, uma proteína produzida pelas células de gordura que sinaliza ser a hora de parar de comer. Embora prossiga nas pesquisas em busca de algo melhor, a indústria farmacêutica já oferece medicamentos capazes de provocar a procurada sensação de saciedade.
Por enquanto, a oferta de leitos para a gastroplastia ainda é tímida para uma demanda estimada em 500 mil pacientes com hiperobesidade no Brasil, quantidade pequena se comparada com a dos Estados Unidos, onde, segundo o Instituto Nacional de Saúde, 55% da população é atingida - cerca de 97 milhões de pessoas. Independentemente de ameaça à saúde, a hiperobesidade traz inúmeros e insuportáveis desconfortos aos pacientes. O técnico em artes gráficas Helner Lopes da Rosa, 27 anos, que chegou a pesar 250 quilos, recorda ter atingido um ponto em que nem sequer encontrava camisetas para vestir. Tinha de recorrer às costureiras.
Agora, estacionado nos 80 quilos graças à gastroplastia, não só pôde caprichar no visual como - e isso é o mais importante - recuperou a auto-estima e até se casou pela segunda vez. Ele continua complementando sua recuperação com exercícios físicos sob orientação médica. Faz 2 horas de natação por dia e ainda arruma tempo para um bate-bola, no caso basquete ou vôlei, ou uma caminhada. O cirurgião Pareja aproveita seu exemplo para lembrar que caminhada faz bem a todo mundo, especialmente a quem tem tendência a engordar. Para estes, recomenda, no mínimo, andar 3 quilômetros por dia.
Fonte: Revista Época